Tão Pequeno

Todos trancados em casa. O risco de sair é grande. Mas logo eu? Logo eu nos últimos tempos? Últimos tempos em que me tranquei e não quis sair por nada. Tempos em que saí e vi o risco. Voltava pra casa correndo. Agora preciso me trancar não porque eu quero, não por escolha, mas por necessidade. Por mim e pelos outros. O risco sempre foi eu (“fui eu” seria muito óbvio). O risco sempre foi eu no mundo. Percebi isso depois de me trancar. Trancada me vi livre, confesso. Não, corrijo: trancada fui me tornando livre. Fui vendo que eu não era mais risco, que eu podia (e posso!) fazer carinho em mim. Fui vendo que não sou tão egoísta e auto-centrada como eu imaginava. Eu penso, sim, nos outros. Quarentenada, faço bolo de chocolate e deixo pros amigos em suas portas. Porque é tudo tão amargo sem ninguém. Que saudade de abraços. “Mas não era tu que não queria ver ninguém e se trancava?”. Eu não queria me ver. Os olhos dos outros são como espelhos para uma paranóica. E pra quem não tá em paranóia também. Quero “abraços e beijinhos sem ter fim”. Porra! Sempre achei essa música boba, comum. Só porque tinha escutado demais... Só porque era comum! Esse desejo de ser supra-sumo ainda vai nos fuder bastante (lembrando o poeta lá, sendo que mais ou menos). Chorei com “Chega de Saudade”? Chorei com “Chega de Saudade”! Como eu amo gente! Como eu não esperava dizer isso! Lembro do Valter Hugo Mãe: “O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti.”. Caralho! Caralho! Toda arrepiada! Lembro de laerte-genial, uma publicação de um de seus desenhos-geniais em que ela diz olhar pro espelho e no reflexo ver todo mundo. Antes o olho do outro como espelho, agora o espelho para ver os outros. Telefone toca. Meses atrás, quando eu havia transformado minha casa em um bunker e não saía por nada, apenas silenciaria. Mas agora, corro pra atender. É a minha mãe. Falo com ela todos os dias, todos, com ou sem isolamento, passei a fazer isso de forma instintiva desde que minha filha nasceu. Quero que ela me atenda sempre. A minha filha, digo. “Filha, pra avisar que ele tá em estado crítico e que é isso, não tem volta”. A frase é pesada, por ela ser médica, o peso dobra. Mentalizo naturalmente uma boa morte para ele. Sim. Uma vez vi um vídeo de uma travesti sendo espancada (di-gi-tar is-so é di-fí-cil) e uma pessoa que admiro escreveu um longo texto sobre e tinha essa frase: “que jeito horrível de morrer”. Ao escrever que desejei uma boa morte pra ele, lembrei dessa frase dessa pessoa. Enfim, mentalizei num sentido mais terrano que espiritual. Minutos depois minha mãe liga novamente com uma voz branda que ela não tem de maneira alguma. “Clara? Ele morreu.”. Grito que isso é muito escroto pra sua companheira que acabou de perder a mãe, agonizo e grito com o céu (?). Na ligação anterior que ela tinha me avisado que ele iria morrer, a minha reação foi de paz, de calma. Mas quando vi que era real, a raiva subiu a cabeça. Raiva do homem, raiva do mundo, raiva da vida. Minha analista já havia “me dito” que o jeito que eu lido com a dor é transformando ela em raiva. Vejo agora claramente que fiz isso. Na mesma hora roguei praga à essa parte do país fascista, pensei em carreatas passando no momento do enterro. Carreatas que pouco ligam para a vida. Mas, ora, são carros! São mais carros que pessoas. Vou cozinhar um cheesecake. Chamo meu vizinho-amigo e dou um pedaço gigante. O sorriso dele completa um dia que estava vazio. Vejo nos outros o paraíso. Vejo na vida, um paraíso. Vem a crise de pânico! BUM! Sensação de suspensão, sensação de despregamento da realidade. Tempo de paraíso durou pouco. Porra eu parei com todas as drogas, não quero tomar remédio. Tomo o alprazolam. Lembro da Clarice: “Meu deus, só agora me lembrei que a gente morre. mas - mas eu também?! Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim.”. Como o cheesecake de goiaba, quase um morango nesse momento. Respiro, efeito do remédio vai entrando, olho pra Ava. Ah! Tem que fazer a foto da disciplina. Me sinto pequena, com medo novamente da morte. Medo antigo que foi se transformando em medo da vida. Mas naquele instante era de morrer. E era de morrer porque tô gostando de viver. Caralho! Eu escrevi isso? Assuma gostar de viver. Essa mania de artista triste já num rola. Lembro da minha analista. Lembro da minha pulsão de morte enfiando o nariz em drogas. Coloco o colchão na sala, coloco a câmera em frente e começo a cair repetidas vezes no colchão enquanto a câmera, no automático, tira as fotos. Ligo o computador passo as fotos. Uma música vem na cabeça, poema do Camões que musicalizaram: “Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida, Que não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?”. Ouço repetidas vezes, alternando com outras músicas também existenciais ou questionadoras da existência. Publico a foto. Faz tempo que uma fotografia minha não toca as pessoas desse jeito, que não recebo esses retornos. É, minha criação (escrevi criança e corrigi, deixo registrado) é quando chego no âmago. “Ostra feliz não faz pérola”. Falava tanto isso sobre a minha arte, meu jeito de criar. Não. Eu estou bem, não vou ousar dizer “feliz”, mas eu estou bem. Eu posso estar bem e ter medo do abismo. Eu posso estar bem e sentir essa vertigem. Eu posso até ficar mal, mal mesmo ao sentir, mas eu posso fazer o lance lá da queda um passo de dança. Ou posso pelo menos tentar. Recebo uma mensagem-agradecimento do meu vizinho-amigo, dizendo que tudo que eu faço é lindo (falava referente a fotografia e ao pedaço que mandei pra ele). Fico feliz com o elogio, mas continuo sendo eu e continuo precisando ser realista. Respondo: “Ainda bem que tô fazendo coisa linda, amigo. Porque eu já fiz tanta besteira”. Rio alto.

Fortaleza, 23 de abril de 2020, 18:10.

Radiografias sonoras de dor e auto-acalanto

 

é eu perdi a ternura consumida rígida dura o ódio subindo no peito num vai e vem entre tardes entre cigarros entre lágrimas entraram em mim sem eu querer sem eu pedir sem eu deixar colocaram dedos onde nunca disse que ali eram pra estar dedos acordei numa tentativa incessante de tirar o ódio do peito grito falo verdades minto choro minto acho que minto quando percebo estou me abraçando é sou eu que vou me abraçar na hora da minha morte sou eu que vou me acalantar no resto dos dias da minha vida nos dias que restam da minha vida na vida que resta dos meu dias no resto no resto da vida chego jogo derrubo em cima de você o resto da minha vida errei erro resta muito muito muito você nem pode nem deve nem consegue transformo meninos em homens na minha cabeça no meu corpo não não posso não podem meninos não podem homens não podem não vejo meu braço entrar nas minha pernas meu braço meu não o seu posso posso quero e posso vou vou gritando vou alucinadamente segurando minha própria mão descendo a ladeira correndo e gritando: o mundo já é escroto, não sejamos!

 

Fortaleza, 23 de maio de 2016, 11:14.

 

O que restava quando olhei pro abismo

 

Quando tudo vai ruim, ela parece me abraçar. Ou ela fica rodeando, rodeando, rodeando, até me abraçar. E eu sinto quando o abraço tá perto. “Ela” seria personificação demais. Não, não é “ela”. Não posso chamar a morte de “ela". Não, não posso. Quem me abraça sou eu. Quem me abraça sou eu sabendo que vou morrer. Hoje, depois de tanto cartografar o que passa no peito, acho que sei que me abraço não por saber que vou morrer, mas por já estar morta. Morte em vida. Os anos passam e quando vou colocando a morte dentro da vida, a morte na frente da vida ou apenas a vida de lado, a cabeça salta e começo a pensar nessa coisa de acontecer de eu ser gente, nessa coisa de existir. Chego pra ele e pergunto: "E aí?" Ele me fala: "Sabe que é só uma camada bem fininha de verniz que a gente coloca pra fazer essa porra toda ter sentido, né?". Me tremo, penso nos móveis que, por prazer, arranhei pra ver o verniz sair. Esse foi o dia que “ele me deu um beijo na boca”. Chego pra ela, com a mesma indagação. Ela olha e me diz: "A festa que tem é essa". O outro diz que simplesmente não pensa nisso. O outro diz que pra ele a morte é a solidão. A outra diz se sentir aliviada que um dia acaba, redenção. Lembro do “Tenho dó das estrelas, luzindo a tanto tempo. Um cansaço de existir”. Ela, de longe, me fala: “É que ensinaram pra gente que tudo tem que fazer sentido, né? Aí é foda". Ofegante falo: "Tô com medo de morrer, agora, do coração". Em seguida ele pergunta: “E agora?”. Cinco minutos passam e ele volta a perguntar: “E agora?”. Meia hora depois, eu já tendo esquecido, ele volta a perguntar: “E agora?”. E agora? Sorrio pra ele. Fico feliz de existirmos na mesma época. Me culpo por ter colocado ela no mundo e isso aqui não fazer sentido nenhum. Ela fica rodando várias vezes e rindo, até ficar tonta e rir mais ainda. Sorrio e choro quando percebo que ela não tá preocupada com sentido. Ela sequer sabe o que é isso. Ou sequer se preocupa. Mas gosta da vertigem, da tontura, e ri. Ela me ensina. Um dia, quando ela me perguntar, eu responderei falando das estrelas, trilhares de estrelas, trilhares de grãos. Acho que esse é o dia que mais espero. Conversar com ela sobre estarmos aqui. Faz dez anos que ele me fala que no máximo-mínimo a gente vai se tornar planta. Hoje, já fala em ser grama, em ser nada. Em ser tudo. Ele me falou uma vez: "Me parece que tu é bem apaixonada por esse mistério todo". É, “o fato é que eu sou”. Ela me pergunta se tenho medo do conceito ou de morrer agora? Não consigo diferenciar, é tudo isso e mais aquilo e mais aquilo e mais aquilo. E só isso. Ela diz: "Eu sentia a mesma coisa na tua idade". Vai passar, então? Ele me fala de cosmos, ele me fala de coisas que não entendo. Ele não me parece entender também. Ela me fala que um monte de coisa que tava no meu corpo, semana passada, não tá mais. Que tá tudo morrendo, que tá tudo nascendo. Ela me disse uma vez: "Olha mais pra cima!”. Olho pra o céu, pras estrelas. Me alivio por ser pequena. Me desespero por ser pequena. Um dia ele me falou que a nossa maior merda é acharmos que somos especiais e eternos. Vem a raiva de terem me dito isso desde que me entendo por gente. Queria não me entender por gente, várias vezes. Rio quando escuto: “Eu não precisava ouvir nada das estrelas, eu só queria conversar com alguém". Entendo, por fim (?). Me alivio pensando que tudo morre. Fico com pena de tudo que morre. O que morre é tudo. E se ninguém morre? Caralho, pior! Fins são necessários. Fins são necessários? Não, fim é fim. Tudo tem fim. Tudo começa. Tudo tem fim. Um dia ele me pergunta: "Preferia não ter existido, então?". Com raiva, branca e mimada, faço birra e digo que não quero responder. Depois, na festa da carne, cheia de substância na cabeça, grito: "Preferia ter existidooo!". Preferia? Não sei, ali preferi. Tem hora do dia que prefiro, tem hora do dia que não. Tem dia que sim, tem dia que não. E acho que vai ser assim. Vai ser assim até ser assim.

 

Fortaleza, 10 de março de 2016, 11:59.

 

O ocaso nos domingos é o pior. 

 

Vou dormir com medo. De repente vejo o medo cartografado em minha cidade. Não, na minha cidade, não. Na verdade, onde nasci. 
Minha cidade é grande, onde nasci é pequeno, uma parte. 
Acordo, mais um dia, vejo a igreja. Como ela me oprime! Todos os dias! Acordo na cidade branca, que conserva aquilo, logo aquilo, que me corrói, que me esmaga.
Percorro pela cidade graduada, cada esquina sua me parece um tanto católica, hoje. Suas ruas me lembram medos que senti, as dores que bateram no peito naquele final de tarde de um domingo. 
O ocaso nos domingos é o pior. 
O ocaso nos domingos, vendo o mar, é o pior. 
O ocaso nos domingos, vendo o mar, na minha cidade, é o pior. 
Quanto ruído, quanto corpo, quanta dobra, eu posso expor isso? Não sei, sei que guardado na gaveta de minha escrivaninha não cabe. Dentro do peito, não cabe. Só resta isso? 
Me revolvo.
A linha tênue entre luz e sombra no meu corpo, no corpo da minha cidade, é onde vejo a morte. 
Talvez o que resta seja respirar onde essas linhas (tão tênues!) não chegam, onde elas não encostam. 
Talvez, ali, no claro de luz, ou ali (ali, ó!) naquela sombra lisa e também segura, seja onde eu consiga, finalmente, respirar.

 

Fortaleza, 14 de setembro de 2015, 20:35.

 

Híbrido

 

Híbrido – um corpo depois que explode. Depois da festa. Depois do fracasso. Já não é testemunha ou refém. Já não é sequer – e sobretudo – juiz. A mais pura solidão em estado de – maravilha. Este corpo poderia perfeitamente estar de fora. Ele está efetivamente fora, por fora, mas um olhar, insistente, o reinsere na zona. Sabemos que o corpo implodirá esta zona – deixa-se tomar por desígnio (nós, por descuido) – deseja sempre, erotiza sempre, entrega-se sempre – e de tanto entregar-se devora, por fim, o olhar mesmo que o reteve. Não temos senão a ilusão de seu momento. O olhar ocorre. O corpo acontece. A festa acabou, morreu a imagem. Mas a noite do corpo não esfria. Ele não quer falar, mas se indigna. Não quer produzir – mas reserva. E tenta apreender-se, e explode. Encena, em si, sua proliferação. Para ele, o cu (não) é o limite. Este corpo é Hiroshima, mas é também Babel.

 

Texto de Diego Landin sobre o ensaio Híbrido.

 

Fortaleza, 24 de junho de 2015.

 

 

Acordei e pensei que não fazia sentido nenhum que a morte doesse

 

os dias seguem como se suas vinte e quatro horas fossem aquele exato momento em que o cigarro acaba irritação a cabeça não para sensação é de estar numa frigideira fecho os olhos, sinto um corpo em cima de mim várias músicas tocando ao mesmo tempo não existe o silêncio respiro não adianta, é ofegante e só traz o medo da falta de ar peso penso que me meti em coisas que eu não cabia, que eu era pequena ou até que eu era grande demais o meu olhar que reflete no espelho é o olhar que mais me assola com o passar dos dias a voz dela, desmedida, incoerente e recalcada não para de gritar dentro da minha cabeça o outro no chão, ajoelha, finge ser outro e isso tudo traz vontade de correr correr e não parar seria possível? nem isso posso saber, não tentei você, o seu silêncio, me sufoca preciso de uma palavra mas comecei dizendo que não aguento mais palavras eu disse isso? meu corpo não é meu mas não posso falar isso, não, não posso eu sou daquelas que não acredita que eu não sou mais nada do que o meu corpo mas meu corpo é isso, então? o medo e a necessidade de sentido era o que me fazia estar em pé acordei, não vi sentido e nem tinha mais medo e agora? viro pra um lado, viro pra o outro, me toco suspiro a tal da beleza "física, mas não só, não só” me sufoca não dou conta então por que fui? por que fiz? por quê? porque fiz culpo cidades, culpo temperatura e sinto que pra resolver tudo isso precisaria só de um espelho mas eu enceno em frente a ele faço performances e os mesmo olhares pego a câmera, coloco num tripé não quero chamar ninguém, não quero ajuda de ninguém, não quero ninguém aqui dentro dou um jeito meu jeito sempre essa merda disparos, disparos, disparos quase tiros medo de me ver, de me enxergar olho é assim que eu sou? cavo um buraco e fico demoro um tempo do buraco só se ver a fumaça saindo fumo, fumo medo de morrer ah, não cadê o medo que tava aqui? puta que pariu mas era o medo que tava me norteando não tem mais de novo vem o mesmo refletor com uma luz que me cega esse refletor tem vindo vários dias vários dias trago ele, monto e ligo bem na minha cara não dou conta de novo o corpo por cima de mim por que eu fiz isso? porque fiz fiz e olho pro corpo dou conta tenho que dar tenho que contar não tenho cabeça nem braços cadê meus pés? não tem fugiram meu corpo fugiu de mim mas ele tá lá e não é mais aquele corpo armado e trincado frente a um espelho perdi o controle medo ah, não o medo que tava aqui fugiu tudo fugiu ou sou eu querendo fugir sou eu fugindo volta a respiração ofegante olho pro chão, ele tá lá grito: sobe, sobe olho pra cima, o outro tá lá por que eu fiz isso? porque eu fiz não só, não só e meu corpo tá lá minhas costas me olham e eu nunca pensei que um retrato meu sem rosto pudesse tanto me mostrar, pudesse tanto olhar pra mim continuo olhando o espelho é teatro o sufoco é a brecha sou grande e não passo coloco o nariz pra fora e finalmente respiro.

 

Fortaleza, 30 de março de 2015, 20:23.

 

 

Dois Nomes

 

- Ei, vamo fazer umas fotos tipo umas coisas do Schiele?

- Quem é “chile"?

- Aquele pintor que tem altos auto-retratos.

- Ah, o “chiele"!

- É, é, é!

- E como é que se pronuncia mesmo? É “chile” ou “chiele"?

- Rapaz, sei não, eu falo “chile".

- É, e eu “chiele"’.

 

E em todas as reuniões e conversas sobre o ensaio eram escutados e falados dois nomes, dois nomes de uma mesma pessoa. Seria meu primeiro ensaio nu. A nudez, até então, eu só tinha visto no sexo. Estranho. A primeira reunião foi um verdadeiro "despir-se completamente". Não, não me despi. Ele, sim. Mas não foram as roupas que caíram no chão. Foram os desabafos, os medos, os sexos, os gozos, as dores. Ouvi. Lembro de até me perguntar quando seria eu que tiraria todas as roupas, todas as falas. Ainda não aconteceu. Chamamos dois amigos. Um deles é um artista plástico absurdamente foda. Suas pinturas são de frente, cara a cara, sinceras. E simples. O outro é uma artista suburbano, subversivo. Todas as conversas que já tive com ele são viscerais, ficam frases perambulando na cabeça por mais de uma semana. Ou fica só a sua risada gostosa. Risada escrota que sabe e sente a dor de tudo, mas nem por isso (e não por isso) deixa de gozar e rir. E tinha ele, aquele ali do inicio do texto, o que propôs o ensaio, o fotografado. Ele grita, pula, se contorce, sai de si, só pra contar uma história. Mas ele nem imagina que faz é a gente entrar na história dele com toda essa performance, ele envolve. E é um amigo, e tá aqui, e vai, pra onde for. Faz uns dois anos que vejo ele ir se desenvolvendo dentro do que ele pensa, do que ele acha, do que ele acredita. E essa porra só cresce, ele só cresce. Crescer, nesse caso, não é maturidade. Não… É agregar, adicionar, juntar. Pode ser até que exploda. E se explodir, amigo, estarei aqui. E nos juntamos, nós quatro, numa terça-feira. Um de ressaca, um nervoso, um instigado e uma grávida sentindo toda a potência do viver dentro da sala de sua própria casa. Tudo foi construído ali, tentamos achar o lugar dessas fotos ali. E esse mesmo rapaz que falei que anda agregando coisas com o passar do anos, explodiu. Mostrou caras, braços, pernas e dor e gozo e ira. Ainda não sei tudo que ele mostrou. Sei que ali, ele propôs o nome do ensaio: Almoço Nu. Tentei entrar no livro e entender o porquê da mistura de Schiele e Burroughs.  Essa mistura era ele, meu amigo, o fotografado. Aí eu fotografei e o ensaio é meu? É isso? Não, nem perto. Ando me questionando muito essa coisa de autorias. Mas posso dizer que fiz minha parte em captar o submundo-de-Burroughs e o corpo-rígido-presente-de-Schiele. Isso tudo em uma pessoa. Uma pessoa entregue. Entregue e jogada no mundo.

 

O texto teria acabado aí, mas eu não poderia deixar de lembrar (pra mim mesmo) que deixei os três (um estava nu e com o corpo cheio de tinta) me esperando por quase duas horas. Paramos o ensaio no meio e fui pra uma sessão de análise. Com manchas de tinta e deitada num divã. Voltei, continuamos o ensaio. E ninguém sabe, mesmo, que pra mim não foi um ensaio. Foram dois, claramente (clara, mente) divididos.

 

Fortaleza, 27 de março de 2015, 14:08.

 

 

Acordei. 

 

Tinha que correr, como sempre. Mas na gestação correr não é fácil. Era uma das primeiras sessões com a minha analista. Eu não tava muito bem, não fazia nem um mês que eu tinha chegado de São Paulo. Morar em sua cidade natal depois de um tempo morando fora é muito difícil. A gente vira estrangeiro não só lá, mas aqui também. A morte não me saía da cabeça, as mortes. Nada fazia sentido. Carregar uma vida dentro da barriga fazia menos sentido ainda (escrevendo agora, com a minha filha com quase oito meses, em vez de “menos", escrevi “mais", ato falho lindo). Trazer uma vida para o não sentido da vida. Surtei. Entrei na análise. Ao poucos fui vendo que não era muito bem medo da morte, o que eu tava sentindo. Eu tava me sentindo morta. Eu tava me sentindo enterrada. Mas não fui eu que me enterrei. Não, não foi. Me enterraram. Ou eu me deixei ser enterrada, né? Aí ouvi a pergunta da minha analista: "Clara, por que você tá com tanta raiva?" Não consegui responder. Vim pra casa. Uma amiga e meu irmão vieram almoçar comigo. Cozinhei. Conversamos sobre algumas angústias. Muitas delas em torno do universo e da existência. Alguns dias antes eu tinha escutado repetidas vezes a música “Vaca Profana". Ela nunca tinha feito tanto sentido quanto naquele momento. Raiva dos caretas. Raiva de mim, careta. Raiva de mim. Raiva. Pensei em fazer fotos com leite, tinha visto um documentário da Annie Leibovitz, uma foto que ela fez com a Whoopi Goldberg dentro de uma banheira cheia de leite. Aquilo ficou na minha cabeça. Propus fazer umas fotos, perguntei se a amiga topava, topou. Pedi pra meu irmão comprar leite. Meu irmão começou a jogar leite na cara da minha amiga, vi que o momento que o leite chega ao outro, a reação do outro, era o que eu queria fotografar. Ela ficou com raiva, pediu para jogar nele também. Nesse momento, ali, na hora, o conceito do ensaio se construiu. Não era um fotografado, eram vários, eram todos. Ele topou. Ela jogava o leite com tanta raiva na cara dele, se vingava. Chamamos meu marido, topou também. Meu irmão e minha amiga jogaram leite nele. De repente chegaram mais amigos, toparam também. Chegou até um amigo de um amigo, eu não conhecia, topou na hora. Parei de fotografar, ficamos conversando, a casa cheirava mal, coalhada. Passei três dias sem sequer pegar na câmera. Não tinha coragem, sabia que as fotos eram fortes, eram algo que eu nunca tinha feito antes. “Porra, fiz meu primeiro ensaio!”, pensava. Passei dois dias tratando as imagens, aquilo estava muito bom, eu não poderia estragar. Sempre o medo de estragar. Sempre o medo. Publiquei. Nunca tinha recebido tantos elogios, nunca. Foi difícil. Muitas vezes achava que tinha alguma coisa errada, estavam falando mesmo de mim? 

Meses depois, minha filha já tinha nascido, eu já conhecia muito bem o cheiro do leite que saía das minhas tetas (nem tão profanas assim), propus fazer o ensaio, agora intervenção, no meio de uma festa. As pessoas não experienciaram jogar o leite. Apenas receber. Novamente o momento que o leite chega ao outro, a reação do outro. A constatação de que todos nós somos caretas, a raiva de ser careta. Ou o mesmo leite bom pra todo mundo, pra todos nós.

 

Fortaleza, 9 de janeiro de 2015, 00:36.